Grande Prémio Romance ou Novela APE 2025
Partindo das Aventuras de João Sem Medo, Patrícia Portela convida-nos a atravessar o muro da realidade e a redescobrir a importância da imaginação num tempo em que pensar, sentir e agir se tornaram atos de resistência. Num desfile de encontros com personagens que ecoam o universo de José Gomes Ferreira, a atualidade da sua mensagem impõe-se: num mundo saturado de informação e acontecimentos, enfrentar o medo nunca foi tão necessário.
“Manual para andar espantada por existir é uma belíssima homenagem e, simultaneamente, um notável exercício de escrita e de imaginação. Romance de estrutura complexa, bem urdida e surpreendente, revela uma agilidade que transborda dos limites da ficção dita clássica e uma extraordinária capacidade de fazer dialogar, com ironia e liberdade, diferentes tradições literárias, do romance inglês setecentista e de Saint-Exupéry até, entre nós, Almeida Garrett e o espírito surrealista. Mas é sobretudo na aparente e comovente simplicidade com que aborda questões profundamente filosóficas que o livro encontra a sua singularidade. Através do espanto perante o quotidiano, Patrícia Portela transforma o olhar e a atenção em formas de pensamento, interrogando o que significa existir e como nos relacionamos com o mundo. É um livro leve e simultaneamente denso, que nos convida a recuperar a capacidade de estranhar aquilo que a habituação tornou invisível, mostrando que a filosofia pode também nascer dos gestos simples, da linguagem e da disponibilidade para nos maravilharmos com o facto de estarmos vivos. É justamente a partir desse exercício de atenção e de estranhamento que Patrícia Portela revisita José Gomes Ferreira, fazendo da sua escrita matéria viva de um romance que olha simultaneamente para o passado e para o presente. Ao recuperar essa voz, a autora não se limita a prestar homenagem ao criador de João Sem Medo; fá-lo dialogar com o nosso tempo, reescrevendo a história do medo e da coragem no nosso mundo, e para o nosso mundo. E é nessa passagem do passado ao presente que o romance encontra uma das suas maiores forças: as palavras de então reaparecem hoje com uma perturbadora actualidade. (…) É nessa extraordinária capacidade de fazer da memória matéria de criação, do espanto uma forma de pensamento e da literatura um modo de interrogar o nosso tempo que Manual para andar espantada por existir se afirma como uma obra singular e Patrícia Portela como uma das grandes vozes da literatura hipercontemporânea portuguesa (…).”
O júri, coordenado por José Manuel de Vasconcelos e constituído por Ana Paula Arnaut, Cândido Oliveira Martins, Helena Carvalhão Buescu, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Telles de Menezes.
Patrícia Portela vence Grande Prémio de Romance e Novela 2025
A escritora Patrícia Portela conquistou o Grande Prémio de Romance e Novela 2025, com o livro Manual para Andar Espantada por Existir, anunciou esta quarta-feira a Associação Portuguesa de Escritores (APE), patrocinado pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), pela Câmara Municipal de Grândola, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto Camões, o prémio tem um valor monetário de 15 mil euros.
PRESS
Neste “Manual para Andar Espantada por Existir”, Patrícia Portela dialoga com o universo criado por José Gomes Ferreira em “Aventuras de João Sem Medo”. Porque “cultivar uma imaginação sem freio e uma persistente curiosidade” talvez seja, hoje, a nossa única hipótese
José Mário Silva in Expresso
O mais recente livro de Patrícia Portela, escritora polifónica que nos tem dado livros muito diversos no estilo, na linguagem e nos temas, parte das Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, para uma reflexão sobre o papel da imaginação no pensamento, individual e colectivo, sempre numa abordagem que é de avidez nas ideias convocadas, nas dúvidas proferidas e na vontade de investigar e perceber gestos, emoções e escolhas.
Sara Figueiredo Costa in Blimunda
Li o mais recente livro de Patrícia Portela e ainda estou a tentar recuperar do impacto. “Manual para andar espantada por existir” é uma dessas obras que nos deixam completamente desarrumadas por dentro. – No melhor sentido possível.
(…) A forma como a Patrícia escreve é qualquer coisa de brutal. Ela tem esta capacidade de pegar nos medos contemporâneos – o facto de não usarmos o “músculo da imaginação” num país que considera “paralisado” – e transformá-los numa espécie de manual de resistência. Este é verdadeiramente “um mapa para quem ousa existir de olhos abertos e coração inquieto”.
O que mais me impressiona (e, como já confessei, me deixa com uma inveja tremenda) é a maneira como ela consegue ser simultaneamente íntima e universal. Dedicou o livro à filha adolescente e isso sente-se em cada página – há uma ternura maternal que dialoga constantemente com uma lucidez política feroz. É como se fosse uma carta de amor ao futuro., escrita por alguém que se recusa a fingir que o presente não está complicado.
Depois tem outra coisa maravilhosa:
Consegue ser profundamente intelectual sem ser pedante e politicamente comprometida sem ser panfletária. A forma como ela constrói as frases, como joga com as ideias e como consegue em cada parágrafo seja simultaneamente belo e necessário… é de uma mestria que me deixa de queixo caído.
A cada página, só pensava: como é que ela consegue transformar a análise do mundo contemporâneo numa coisa tão poética e ao mesmo tempo tão certeira?
E a receita que ela deixa – “recuperar o espanto, a admiração, a curiosidade, a convicção, o desassossego” – é de uma simplicidade genial.
Pelo amor de todas as Deusas, LEIAM ESTE LIVRO!
Helena Gonçalo Ferreira, doutorada em estudos culturais, investigadora na universidade de Aveiro e activista de direitos humanos, para o P3, suplemento do Público.